Os costumes sociais em transformação e a defesa da sexualidade feminina por parte do movimento das mulheres começaram a tornar imaginável que o prazer que o sexo proporcionava às mulheres poderia superar de forma final e definitiva a dor. Os fios do sexo e da dor nas mulheres começavam afinal a se separar. Com essa estranha e recente ausência da dor feminina, o mito colocou a beleza em seu lugar. Pois, tanto quanto as mulheres pudessem se lembrar, alguma coisa em ser mulher sempre doía. De uma geração para cá, isso foi sendo cada vez menos real. Mas nem as mulheres nem a ordem social masculina podiam se adaptar de forma tão abrupta a um presente no qual o fato de ser mulher não era caracterizado e definido pela dor. Hoje, o que dói é a beleza.
Muitas mulheres aceitaram estoicamente essa nova versão da dor exigida pela beleza porque a falta da dor sexual deixou um vazio na identidade feminina. Tanto os homens quanto as mulheres esperavam que as mulheres se adequassem à liberdade, sem qualquer esforço, com uma resistência sobre-humana. Só que não se aprende a liberdade facilmente da noite para o dia. Uma geração não é tempo suficiente para que se esqueçam cinco milênios de aprendizado de como suportar a dor. Se o sentido de identidade sexual de uma mulher esteve centrado na dor desde o registro mais remoto, quem é ela sem a dor? Se o sofrimento é a beleza e a beleza é amor, ela não pode ter certeza de ser amada se não sofrer. Com esse condicionamento, é difícil visualizar um corpo feminino livre da dor e ainda desejável (…)
A mulher vitoriana era reduzida aos seus ovários, como a mulher de hoje está reduzida à sua “beleza”. Seu valor reprodutivo, à semelhança do valor “estético” do seu rosto e do seu corpo hoje em dia, “chegou a ser visto como um bem sagrado a ela confiado e que ela deveria proteger constantemente no interesse da sua raça”. Enquanto os médicos vitorianos ajudaram a sustentar uma cultura que precisava olhar as mulheres através do determinismo ovariano, os cirurgiões estéticos modernos fazem o mesmo pela sociedade ao criar um sistema de determinismo da beleza.
de Naomi Walf. O MITO DA BELEZA. Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres.
