Catching Fire

O  título do post é o mesmo de um dos filmes da série Hunger Games (Jogos Vorazes). Muita gente, a primeira vista, acha que é uma trilogia adolescente. Mas acho (sinceramente) que vai além. Fala de distopias, de um governo repressor, de pessoas que são subjulgadas enquanto assistem a um espetáculo cruel. Dados manipulados, realidades inventadas, mortes surreais. Mas como não estou (nem quero) fazendo propaganda dos filmes da Lionsgate, parei por aqui.

Usei esse nome para falar de uma bomba relógio, que não é a de Claratos. É o eixo Santos-Cubatão, no estado de São Paulo.

(* veja esse artigo)

Faz muitos anos que alguém teve uma ideia genial de construir uma cidade, cheia de indústrias, que depois foi chamada de “Vale da Morte”. Um vale em que crianças nasciam com problemas sérios, pessoas eram gravamente contaminadas. Anos depois, o enredo magicamente muda. Vira a cidade dos guáras-vermelhos e diz que se recuperou totalmente.

Era uma vez um lixão chamado Alemoa, em Santos. Um passivo ambiental enorme, muito gás metano.

Era uma vez um porto, algumas plataformas de Petróleo sugando óleo negro em uma profundidade superior a do Everest.

Erosão costeira, especulação imobiliária, criminalidade, cidades fantasmas após temporada.

Tá tudo certo na Baixada.

 

As pessoas fizeram tudo errado por anos, e uma primeira bomba explodiu. Os técnicos da Cetesb, “as autoridades” se esforçam, mas não dá pra fazer nada. É apenas uma amostra do que pode acontecer quando existem vários elementos problemáticos, mas as pessoas dizem que “tá tudo bem”, “o melhor está sendo feito”…

A questão nem é mais se o fogo vai apagar antes de ser época das fogueiras de São João. Mas todo o impacto, que está sendo minimizado nos discursos. E, PRINCIPALMENTE a necessidade de adequação ambiental das outras indústrias ali instaladas.

Onde estamos, para onde vamos…

É curioso: enquanto alguns amigos e conhecidos que não trabalham com “meio ambiente” comentam minha visão pessimista do futuro (pois no geral, galera acha que tá tudo bem e que a tecnologia vai resolver tudo), outros que são pesquisadores ou ativistas afirmam que estou otimista demais.

Deixa eu explicar meu ponto de vista…

Pesquiso fenômenos naturais desde sempre, nada me assusta nesse ponto. A Terra, a vida aqui é algo maior. E, sim, estamos caindo num abismo, queda livre. Isso não é necessariamente ruim. Apenas é.

Quando vejo pessoas tratando seu alimento de forma desrespeitosa, jogando latinhas e plásticos em áreas preservadas, lotando as ruas com automovéis (de forma catatônica e anestesiada), cultivando ganância e arrogância, acumulando bens, entendo que tudo é perfeito. E as coisas só vão piorar, para nós humanos.

Estou tentando cultivar a minha resiliência, optando por uma vida com a menor transformidade possível (mas é complexo). Eu “preciso” usar internet, celular, estar próxima aos grandes centros urbanos para terminar meu doutorado e continuar pesquisando, gerando informação, tentando ser e fazer a mudança – ainda que em microescala. Mas, também, decidi fazer as coisas que mais gosto e ser feliz enquanto isso. Coisas simples, bem simples, que me fazem feliz.

Nesses dias o Doomsday Clock, ou relógio do Fim do Mundo, foi ajustado mais uma vez E, em ressonância à Ressônancia Schumann, parece que abreviamos ainda mais o tempo em pouco tempo.

Esse videozinho (compartilhado pela minha orientadora e produzido por Vance Kite) retrata 10.000 anos de urbanização e “evolução das cidades”. As grandes transformações que mudaram o rumo do mundo, consumo, produção e descarte em larga escala.

 

 

 

Arthur Schopenhauer e a água de SP

“Toda verdade atravessa 3 fases:

1) é ridicularizada

* O governador falou que a falta de água enfrentada por muitas pessoas na Grande São Paulo nos últimos dias ocorreu por problemas técnicos, no fim de semana, em Americanópolis, zona sul da capital, e em Osasco, na Grande São Paulo. Alckmin não esclareceu, porém, os motivos dos casos bem mais antigos de desabastecimento. Ele afirmou que os problemas são “pontuais”, e negou o “racionamento informal”, com os cortes de pressão noturnos feitos pela Sabesp.

2) é violentamente contrariada

3) é aceita como a própria prova”.

aguasp

* Presidente da Sabesp diz que é possível Cantareira secar em março

vale ler:

* Colapso e êxodo urbano em São Paulo;

* Dialógos do Fim do Mundo.

esse quote é um oferecimento de

Arthur Schopenhauer

Claratos de metano e o futuro

Quando encerrei as atividades desse blog, em 2011, estava certa de que todos os temas que eu poderia escrever haviam saturado. Ou melhor, eu havia saturado. Na época vi uma internet cheia de conteúdo, todo mundo falando as mesmas coisas. Particularmente, eu míope, via esse mundo num contexto de cultura digital (ou use seus sinônimos para nomear isso) em que o mais importante era defender uma licença livre de conteúdo (sim, licenças livres são muito importantes…mas o mundo é mais do que isso). Também sentia que aos poucos que as coisas que eu acreditava estavam perdendo o sentido.
Então me mudei para Santos para fazer o mestrado (2012) e depois novamente para fazer o doutorado (2013). Aprendi um monte de coisa nesse caminho. Sobre ilusão, desapego, fragilidade da vida, coerência.
E tenho estudado um monte de coisa sobre resiliência, ecologia humana e climatologia, enquanto cuido de hortas e tomo sol.

Vejo muita gente falando da falta de água, do calor, dos fenômenos climáticos…
Mas poucas pessoas conseguem entender o que tudo isso tem a ver com as férias no exterior, as compras, o carro…com a sua vida e suas escolhas. Continuam apenas atribuindo responsabilidade aos governantes, enquanto usam ecobags durante as compras em mercados orgânicos gourmet.

Faz um par de meses que começei a conversar com cientistas de todo lugar do planeta, e vi que pouca gente está divulgando o que o desgelo do Ártico tem a ver com a vida cotidiana aqui no Brasil.

Mais ou menos assim ô:

A minha opinião é que o nosso sistema climático está em estágios iniciais de uma abrupta mudança climática que, sem controle, vai levar a um aumento de temperatura de 5 a 6 graus Celsius dentro de uma década ou duas. Obviamente, uma grande mudança como no sistema climáticas terão efeitos sem precedentes sobre a saúde eo bem-estar de cada animal e vegetal em nosso planeta – Paul Beckwith, professor de climatologia e meteorologia na Universidade de Ottawa, no Canadá.

Ou seja, as políticas atuais de desmatamento e destruição para o “progresso” encabeçadas pelos novos ministros do Brasil contribuem fortemente para o processo.

Não consigo entender como os governantes não fazem ligações simples (com dados coerentes divulgados pelos cientistas) que afetarão suas próprias vidas, como as expostas nesse vídeo:

Que sejamos capazes de aprender e fazer algo além dos selfies em 2015.